terça-feira, 1 de novembro de 2011

Pensamento Estratégico.


Devo confessar que fiquei surpreso com o resultado da nossa última enquete. Perguntei aos leitores do blog que estão ensinando, como eles gostam de ser chamados, ou seja, como se denominam enquanto categoria profissional. A lista de respostas possíveis (podendo escolher apenas uma) era: Educador, Facilitador, Formador, Instrutor, Mediador, Professor e Outros. Quando propus a questão, imaginei que o termo Educador teria uma boa votação e terminaria muito próximo do número de votos dado ao termo Professor. Entretanto, não foi isso que aconteceu, e, com um total de 99 votos, o resultado foi: Educador - 19%; Facilitador - 1%; Formador - 0%; Instrutor - 0%; Mediador - 9%; Professor - 67%; Outros - 3%.
Talvez alguém argumente que o texto da postagem que gerou a enquete (logo abaixo) tenha induzido o voto dos nossos e-leitores. Sinceramente, não acredito que os "frequentadores" deste blog se deixariam influenciar por uma postagem e escolher uma opção que não condiz com o que realmente pensam. Acredito sim, que, se os modestos números aqui alcançados forem representativos do que pensam os docentes brasileiros, eles devem ser vistos como um recado aos nossos teóricos e formadores de opinião: Parem de propor mudanças superficias e se concentrem em idéias que tenham resultados mais "palpáveis" na melhoria da nossa educação!
Nós, professores (ou educadores, mediadores, ou como prefiramos ser chamados) necessitamos menos de nomenclaturas e mais de estratégias que possam produzir efetivamente a aprendizagem em sala de aula, bem como em outros espaços educativos. Todos cobram do professor que este mude sua forma de dar aulas. Que saia da verbalização monótona, como aparece - de modo exagerado - no vídeo acima, na qual, por falta de recursos do professor, a "bomba" do não aprender pode estourar na mão do aluno.
Muitos esquecem, contudo, que "mudar", ainda que seja para melhor, não é somente uma questão de querer ou não querer. É, fundamentalmente, uma questão de encontrar as condições necessárias para proceder a essas mudanças. É muito difícil arriscar-se a fazer algo novo, diferente do que vem sendo realizado há muitos anos, quando se sabe que toda responsabilidade por um possível tropeço vai recair sobre uma única pessoa: a que tentou a mudança. Por isso, cada vez mais precisamos nos conscientizar de que o trabalho realizado na escola tem que ser uma ação coletiva. Mais pessoas envolvidas na consecução de um objetivo, significa melhores idéias, múltiplos olhares e responsabilidades divididas.
O professor ainda se encontra muito isolado em sua sala de aula. Muitas vezes inseguro em função das exigências que vão mudando como se muda de roupa para adequar-se às modas teóricas, o docente sequer permite que outras pessoas que não sejam os seus alunos possam observar o que acontece em sua aula. Este solipsismo pedagógico de nenhuma maneira pode constituir um ambiente propício para qualquer tentativa de inovação.
É neste contexto que ganha importância uma boa equipe de apoio. Psicólogos e pedagogos devem colaborar de maneira sistemática para que o professor possa eleger dentro de um leque de possibilidades, aquelas que considerar mais adequadas aos seus propósitos didáticos num determinado momento. Uma vez que essa possibilidade é posta em prática, devem, em conjuto, avaliar os resultados e pensar em como melhorá-los posteriormente.
Os três vídeos postados abaixo sugerem algumas estratégias exequíveis de suporte ao professor. A utilização de vídeos em sala é uma excelente possibilildade de reflexão e tomada de consciência pelo professor daquilo que ele faz em sala de aula, com impacto direto na sua formação em serviço. As discussões em grupo, num clima de apoio e confiança mútua também colabora para que idéias bem sucedidas possam ser - com os devidos ajustes - replicadas em outros espaços diferentes do original. A utilização de técnicas de obtenção e sistematização da informação, tão valorizadas no meio universitário, também pode fornecer ao professor dados cruciais, que passam despercebidos no calor das atividades cotidianas.
Estou convicto que com um bom trabalho em equipe e com as demais condições de trabalho a contento, teremos não professores de elite, mas uma elite de professores...
  





Para assessorar:

sábado, 15 de outubro de 2011

PROFESSOR, prazer em conhecer!






   Uma coisa tem me intrigado no campo da educação. Sendo mais sincero, na verdade, tem me incomodado bastante. Me acompanhe no raciocínio e me diga se tenho razão. Mas, de antemão, aviso que é algo que vai na contramão do que andam dizendo por aí.
   Se observarmos o desenvolvimento de profissões tradicionais como a medicina, a engenharia e a administração, por exemplo, constataremos que a mudança, tanto nas práticas quanto nas idéias que as norteiam, foi significativa, para não dizer "radical", nos últimos tempos, principalmente em função da consolidação do conhecimento científico e do desenvolvimento tecnológico. Diante destas transformações, até esquecemos que houve épocas em que banhos frios foram prescritos como tratamento para enfermidades, que banheiros eram construídos do lado de fora das casas e que crianças eram admitidas em fábricas para trabalhar por mais de dez horas por dia.
   Tanta mudança nos leva até mesmo a pensar se estamos falando das mesmas profissões. A despeito disso, não vejo nestes meios profissionais (e pode ser apenas falta de informação da minha parte) nenhum movimento para renomear as suas profissões. Os médicos não querem ser chamados de "promotores de saúde"; os engenheiros não querem ser chamados de "solucionadores de problemas tecnológicos"; os administradores não querem ser chamados de "gestores de talento".
   Curiosamente, no âmbito da educação parece ocorrer algo inverso. Sendo uma das mais antigas  profissões (há quem diga que a prostituição é a mais antiga!), muitos defendem que esta é a área da atuação humana que menos apresentou transformações no seu modus operandi. Contar o que aprendeu para aqueles que (imagina-se que) não sabem, ainda se conserva como núcleo duro das práticas pedagógicas levadas a cabo na maioria das nossas escolas.
Carl Rogers (1902-1987)
   A despeito desse conservadorismo na maneira de exercer a profissão, muitos também reconhecem que as idéias em torno do ato de ensinar têm evoluído bastante. E, junto com esta evolução, aparecem as propostas para mudar o nome dado àquele que ensina. Na década de 1970, o psicólogo americano Carl Rogers traz para a área da educação as suas idéias desenvolvidas no âmbito da psicologia clínica e lança um livro chamado "Liberdade Para Aprender", no qual defende que o professor deve ser um "facilitador". Bastou isso para que nossos docentes se apresentassem como facilitadores e não mais como professores.
Lev S. Vygotsky (1896-1934)
   Entre a segunda metade da década de 1980 e a primeira metade dos anos 90, começam a se popularizar as idéias do psicólogo soviético Lev S. Vygotsky. Entre estas idéias, estava a afirmação que toda atividade humana é mediada. De maneira um tanto quanto apressada, comportando todos os equívocos que a pressa provoca nesses casos, muitos dos que ensinavam se declararam "mediadores" e não mais professores.
   Aqui no Brasil, entretanto, é também nos anos oitenta do século passado que começa a ganhar força o principal concorrente para a denominação do professor. O escritor Rubem Alves publica um pequeno livro chamado "Conversas Com Quem Gosta de Ensinar", cujo primeiro capítulo intitula-se "Sobre Jequitibás e Eucaliptos". Creio que vale a pena ler os dois parágrafos que sintetizam a ideia principal do texto:
   Eu diria que os educadores são como as velhas árvores. Possuem uma fase, um nome, uma "estória" a ser contada. Habitam um mundo em que o que vale é a relação que os liga aos alunos, sendo que cada aluno é uma "entidade" sui generis, portador de um nome, também de uma "estória", sofrendo tristezas e alimentando esperanças.  E a educação é algo pra acontecer neste espaço invisível e denso que se estabelece a dois. Espaço artesanal.
   Mas professores são habitantes de um mundo diferente, onde o "educador" pouco importa, pois o que interessa é um crédito cultural que o aluno adquire numa disciplina identificada por uma sigla, sendo que, para fins institucionais, nenhuma diferença faz aquele que a ministra. Por isto mesmo professores são entidades "descartáveis", da mesma forma como há canetas descartáveis, coadores de café descartáveis, copinhos plásticos de café descartáveis. (p.13).
   
Paulo Freire (1921-1997)
   O termo "educador", muitas vezes utilizado por Paulo Freire e outros tantos pensadores representativos no meio educacional, seria, portanto, reservado para aqueles que atingissem a magnitude profissional que o limitado termo "professor" já não comportaria mais (veja aqui uma entrevista com Antoni Zabala). Para os que não conseguiram ser alçados a tão nobre categoria, nada mais resta senão o sentimento de ser descartável. Um copinho plástico de café...
  Vejo que nestes tempos de incerteza em relação ao futuro, de indefinições sobre certo e errado, de multiplicidade de teorias e, fundamentalmente, de desvalorização docente, essas propostas de alteração de nomenclatura só acrescentam ansiedade e tristeza aos nossos professores. Sim, aos professores! Aqueles que precisam enfrentar um cotidiano bem menos romântico do que o que habita a mente dos escritores, e que foi perfeitamente sintetizado pela professora Amanda Gurgel num vídeo amplamente divulgado na internet.
Amanda Gurgel
   Aqueles profissionais que, não obstante as adversidades postas pelo descaso dos governos, conseguem ensinar para além da sala de aula e da burocracia que certifica a aprovação neste ou naquele curso, têm que se deparar, também, com o objetivo talvez inatingível de ser mais que um trabalhador qualificado, responsável, comprometido e competente. O que seria a meta de qualquer outro profissional com condições de trabalho muito mais favoráveis, não basta para o professor, na visão de alguns teóricos que, à frente de seus computadores, não conseguem enxergar o valor de pequenas, porém significativas, conquistas que acontecem em sala de aula.
   Concluo afirmando que acredito nos PROFESSORES. Após quase duas décadas trabalhando com a formação docente, posso afirmar que, se tiverem as condições adequadas para o exercício da sua profissão, certamente farão muito mais e melhor do que já fazem, sem que com isso tenham que se apresentar de maneira diferente. Também sou testemunha de que muitos não têm as condições ideais, mas ainda assim, fazem a diferença na vida dos seus alunos, o que é mais que louvável. A tod@s est@s, desejo dias muito felizes e um ótimo dia d@ professor@!!!





sexta-feira, 30 de setembro de 2011

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Do mau humor ao humor que faz mal!




Não há dúvida de que, a cada dia que passa, a profissão docente se torna mais estressante. Um dos fatos (embora não seja o único) que atestam a veracidade desta afirmação é o elevado índice de afastamentos docentes por problemas de saúde. Um outro elemento que reforça essa ideia - embora de maneira indireta -  é o crescente número de pesquisas sobre burnout entre docentes. Se buscarmos no SCIELO (www.scielo.br) pelo termo burnout e depois refinarmos os resultados com o termo professores, iremos encontrar 15 artigos publicados sobre o tema a partir do ano de 2002, sendo que praticamente a metade (sete!) apareceu nos últimos três anos. Segundo Trigo, Teng e Hallak (2007)"o termo burnout é definido, segundo um jargão inglês, como aquilo que deixou de funcionar por absoluta falta de energia. Metaforicamente é aquilo, ou aquele, que chegou ao seu limite, com grande prejuízo em seu desempenho físico ou mental". 
Sim! Os professores estão no seu limite!!! Não é de se estranhar, portanto, que muitos abandonem a profissão, enquanto que aqueles que permanecem possam chegar ao absurdo de apresentar os comportamentos revelados pelas imagens dos vídeos acima. Não se trata de defender nem condenar sumariamente estes ou outros professores por atitudes semelhantes. Está claro que não podemos simplesmente considerar qualquer ato de violência, física ou psicológica, como natural.  Mas também está claro que necessitamos agir com urgência, eliminando os fatores de risco, pois, mantendo-se o cenário atual, podemos esperar acontecimentos bem mais drásticos num futuro mais próximo do que imaginamos.
Não menos drástica, entretanto, é a solução encontrada por alguns professores para lidar com a construção (???) do conhecimento em sala de aula. Como podemos comprovar nos vídeos postados abaixo, alguns docentes resolveram aderir ao lema "se não pode com eles, junte-se a eles"! Sob a justificativa de tornar o conhecimento mais atraente ou de falar a linguagem do aluno (que em um dos vídeos é associado a cliente), os professores usam termos chulos e até mesmo distorcem a história. Esta trágica opção para manter a atenção dos alunos e uma possível facilidade de recordação do conteúdo no futuro, na minha opinião, ajuda a banalizar  e desqualificar ainda mais o trabalho docente, pois confunde bom professor com animador ou palhaço, e associa os professores sérios (carrascos, caxias, cdfs) a maus professores.
Além disso, existe uma probabilidade muito grande dos alunos simplesmente distorcerem o conhecimento, já que estabelecem relações completamente arbitrárias entre o conteúdo e a forma como é veiculado, sem uma preocupação com a compreensão. É possível que lembrem a piada, mas não lembrem a que assunto se referem, nem como utilizar o conteúdo recordado para resolver a situação problema.
Um outro malefício destas aulas tipo "stand up comedy" é que ensina ao aluno que não se deve investir esforço e empregar estratégias de aprendizagem mais profundas com o objetivo de construir um conhecimento mais consistente e organizado. Têm-se a impressão que tudo pode ser aprendido na base do "macete", do atalho, do caminho fácil, que, na verdade, não leva a lugar nenhum, a não ser à tristeza de saber que por último ninguém vai rir...





quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O preconceito de um "macho adulto branco".






Talvez eu seja um sujeito excessiva ou ingenuamente otimista. Talvez... Mas, em oposição aos saudosistas de plantão, que, ao mesmo tempo que se regozijam por terem vivido uma época de ouro (sabe-se lá quando foi isso!), lamentam profundamente pelos que vivem na atualidade e pelos que viverão um futuro não muito distante, acredito que estamos vivendo um período de importantes mudanças em processo.
Entre essas mudanças, a aceitação da diversidade da espécie humana é a que mais me chama a atenção. Não me recordo (e isso pode ser só um equívoco de memória) de ter visto há 30, 20 anos atrás, tantos movimentos sociais e ações governamentais (decorrentes destes movimentos) para que direitos e oportunidades relativas à vida cidadã fossem repartidos de maneira igualitária. Grupos que historicamente foram alijados da melhor fatia do bolo da vida social, como a participação política, educação, saúde, moradia, emprego, renda e o consequente consumo, hoje têm um cenário mais favorável. Mulheres, homossexuais, portadores de deficiência e não-brancos, às custas de muito esforço, conseguiram avanços significativos na busca de igualdade com "o macho-adulto-branco-sempre-no-comando", referido por Caetano Veloso, na canção "O estrangeiro".
Basta, entretanto, olhar ao redor, para perceber que ainda estamos muito, muito distantes do ideal. Mulheres e homossexuais ainda são vítimas recorrentes dos seus "machos", deficientes ainda precisam superar barreiras físicas e ideológicas e os não-brancos ainda são tratados como uma raça de menor valor, como se existissem de fato raças que subdividissem a espécie humana e como se pudesse justificar eticamente qualquer valoração do ser humano baseada apenas na sua ascendência. 
"Verás que um filho teu não foge à luta nem teme, quem te adora, a própria morte", diz um trecho do nosso Hino Nacional. E, seguindo esse mandamento, devemos enfrentar essa "guerra", batalha a batalha, sempre que essas idéias nefastas de classificar grupos como melhores ou piores, pela sua origem ou pela aparência, aparecerem diante de nós. Otimista(s)? Talvez. Conformado(s)? Nunca!!!
Essa tentativa de introdução é só para não ir tão direto a um fato que indignou muita gente nos últimos dias. Está circulando nas redes sociais, um vídeo de um "macho adulto branco" (reproduzido abaixo), que não detém um poder político, mas possui o poder da mídia global, de grande penetração social e de grande potencial de convencimento, exalando preconceito travestido de elogio e admiração. 
Esse fato suscita a reflexão sobre dois aspectos importantes, nele embutidos. Primeiro, como disfarçada e sorrateiramente aqueles privilegiados historicamente (os machos adultos brancos) pelas idéias racistas, ajudam a manter essas idéias, incutindo no pensamento daqueles que ainda estão em processo de formação (como as nossas crianças e jovens em idade escolar), de uma forma tão naturalizada, que um negro de baixa estatura não pode ser reconhecido pelo seu talento se não parecer um loiro, alto e de olhos azuis. 
O segundo aspecto importante, é saber que atualmente, com a descentralização da produção e divulgação de informação/conhecimento, podemos rebater à altura essas idéias, denunciando a sua essência discriminatória e preparando as novas (e também as antigas) gerações para lidar com essas situações com uma postura sempre crítica, pró-ativa e reativa, se for necessário.
É certo que se nos voltarmos para a escola, campo de interesse deste blog, algo mais precisa ser feito. Precisamos implantar programas de combate ao racismo, em certas situações e/ou seguir os conselhos do sociólogo Demétrio Magnoli, que no vídeo postado acima, afirma que se a escola der boas aulas de História, Geografia e Biologia, já estará dando uma grande contribuição contra o pensamento racista que ainda insiste em afetar a vida de muita gente em nosso país. Vale a pena, também, assistir ao vídeo realizado pela Unicef, pois, entre outras qualidades, nos informa de números importantes sobre o impacto do racismo na infância. 
Vamos jogar fora o nosso racismo!!!







Seja diferente:

sábado, 27 de agosto de 2011

Teoria da Mente.



 Hoje, 27 de agosto, comemoramos o dia do psicólogo. Como manda a  boa cartilha do politicamente correto, devemos sempre dizer e escrever "do psicólogo" e "da psicóloga", até por que, acredito que o número de mulheres ainda é bem superior ao de homens exercendo essa profissão.
É bastante comum em datas comemorativas, buscarmos sempre algo especial para mostrar, algo que nos represente, que sintetize aquilo que somos, temos, pensamos ou fazemos. Dada a já conhecida diversidade da Psicologia, a tarefa de encontrar algo comum às mais diferentes maneiras de defini-la, de dellimitar o seu objeto de estudo e de agir consoante com esses princípios, se torna praticamente (senão totalmente!) impossível. Todavia, entre a imponderável e "obsoleta" ALMA (termo presente na raiz etimológica da palavra Psicologia, praticamente em desuso na atualidade) e o pretensamente objetivo COMPORTAMENTO (o Behaviorismo chegou a ser cogitado como o nome mais adequado para substituir Psicologia), creio que grande parte daqueles que fazem parte do nosso métier aceitam que a MENTE (com toda polissemia que o termo carrega), mesmo não sendo o único, é o principal objeto de estudo da Psicologia.
Em verdade, a capacidade de "ter acesso" ao conteúdo mental de outrem não é um privilégio exclusivo dos psicólogos ou de outros profissionais da área PSI. O que nos diferencia das outras pessoas é, certamente, a qualidade deste acesso, já que a inferência de estados mentais como crenças, desejos, sentimentos, etc., é uma característica fundamental na espécie humana. Desde o famoso artigo dos primatologistas David Premack e Woodruff (1978), há um intenso debate sobre a possível existência de uma Teoria da Mente em primatas não humanos. Teoria da Mente (Theory of Mind), aliás, foi o termo proposto por esses últimos autores que inauguraram um campo de pesquisa bastante profícuo e de significativo valor para a compreensão do comportamento humano.

Representação esquemática
da prova de falsa crença.
  Teoria da Mente (vale a pena ler Jou & Sperb, 1999) diz respeito à capacidade de imputar estados mentais (como conhecimento, crenças, desejos, intenções) a si mesmo e aos outros indivíduos. A despeito das variações decorrentes das abordagens teórico/metodológicas, estima-se que as crianças adquirem essa capacidade entre os 3 e 5 anos de idade. O critério mas comumente utilizado (como tudo em psicologia, também sujeito a críticas) para avaliar a conquista desta capacidade é o desempenho das crianças na chamada prova de falsa crença. Como bem representado no vídeo abaixo e esquematizado na figura ao lado, a prova de falsa crença consiste em solicitar aos participantes que antecipem o comportamento de uma determinada personagem (geralmente uma boneca) que não possui o mesmo conhecimento sobre a situação que o sujeito que deve prever possui. Se este sujeito afirma que a personagem irá se comportar de acordo com a informação que ele tem (mas ela não), isto significa que ainda não desenvolveu plenamente a teoria da mente. Se o sujeito, entretanto, abstrai o seu próprio conhecimento e consegue pensar a partir do conhecimento (neste caso, do que falta) do outro, significa que ele se encontra em outro patamar de desenvolvimento, tendo adquirido (ou construido) uma Teoria da Mente.
Esta capacidade, desenvolvida ao longo da nossa trajetória filogenética, foi para oa nossos ancestrais e é, ainda hoje, crucial para a nossa vida em sociedade, pois nos ajuda a lidar com os outros a partir de um ponto de vista que não é unicamente o nosso, tornando-nos capazes de comunicar, predizer comportamentos, reconhecer sentimentos, estabelecer relações de empatia e cumplicidade. Sem esse componente no nosso amplo leque de habilidades, talvez não chegássemos a constituir sociedades organizadas. Se conseguíssemos, seria certamente uma sociedade de autistas, já que diversos estudos têm demonstrado que o autismo é uma patologia decorrente de um problema no desenvolvimento da teoria da mente.
A partir, portanto, de teorias SOBRE a mente (ou sobre o funcionamento mental, a consciência, a alma ou o comportamento) os psicólogos (e também os educadores!!!) devem buscar dar continuidade ao desenvolvimento da sua Teoria da Mente natural, para que possa exercer da melhor maneira possível essa tarefa de compreender o outro em qualquer que seja o contexto de atuação. 




terça-feira, 26 de julho de 2011

quinta-feira, 30 de junho de 2011

É o amor??????




Definitivamente, após alguns anos trabalhando na área, não me cabe mais adotar uma visão romântica da educação. Pelo contrário, acredito que só se pode mudar o que está aí, e que é de conhecimento de todos, pela via do profissionalismo, da competência, da responsabilidade, da ética e do compromisso político e social. Resumindo, precisamos de bons profissionais trabalhando em todas as esferas cujas decisões tenham alguma repercussão no currículo e nas práticas pedagógicas por ele orientadas. 
Não acredito, por exemplo, que para ser um bom professor ou uma boa professora, a pessoa tenha que, inexoravelmente ter nascido com aquele "dom" particular, que faz tudo ficar fácil, que consegue educar bem, a despeito de todas as dificuldades que possam se apresentar entre a sua intenção de ensinar e a efetiva aprendizagem de seus alunos. Essa visão inatista da origem de nossas capacidades, parece ter o propósito de valorizar os mais habilidosos, alçando-os a um seleto grupo de agraciados (por Deus?!?!) com uma característica rara entre seus pares. Do meu ponto de vista, entretanto, a idéia de uma competência pedagógica herdada geneticamente (ou doada pelo Divino), despreza o esforço para se obter aquilo que vai garantir a todos os professores (e não a uns poucos eleitos) a possibilidade de ensinar bem: Uma sólida formação nas disciplinas que deve ensinar; uma não menos sólida competência pedagógica que permita empreender ações didáticas adequadas a cada sujeito que aprende; condições de trabalho que dêem suporte e possibilitem a criatividade e a variedade das práticas pedagógicas; e salários e demais incentivos à altura  da importância e da complexidade que caracterizam a profissão.
Reconheço, todavia, que apresentados desta maneira, meus argumentos parecem defender um tecnicismo, um racionalismo, ou qualquer desses "ismos" que não contemplem o aspecto afetivo/emocional de toda ação humana. De fato, não acredito que somente pela via da competência racional se possa recrutar bons profissionais para a área educacional ou para qualquer área, mormente aquelas nas quais estes profissionais têm que lidar diretamente com pessoas.
Ciente que sou da inseparabilidade (?!?!?!) da díade razão/emoção em qualquer de nossos atos, nos últimos dias fui "convidado" a pensar sobre este assunto num outro patamar, qual seja: O do amor! Me explico... Em uma dessas redes sociais - que inevitavelmente dizem mais sobre alguém do que as poucas linhas nas quais a pessoa se descreve -, percebi a forma carinhosa e cheia de admiração e cumplicidade com que uma professora e seus alunos e ex-alunos se tratavam. Interessado que fico, toda vez que vejo um/a bom/boa professor/a, resolvi expressar a minha alegria e parabenizá-la pela sua relação com os estudantes. Assim, então, me respondeu ela:
"- É um amor tão grande que tenho pelo que faço que acho que meus alunos percebem isso. Eu aprendo tanto com eles, Iron, que, na verdade, eu é que tenho que agradecer a oportunidade e o carinho que eles me dão..."
Obviamente, me senti tocado (talvez até um pouco incomodado) com este curto depoimento. Mas, devo admitir, que se não concordo com a visão romântica da educação, à qual me referia no início deste texto, tampouco posso acreditar que alguém consiga atingir o reconhecimento naquilo que faz, sem esse amor (excetuando os bandidos, por motivos que julgo óbvios). Se o empenho cognitivo e um forte vínculo afetivo podem levar à competência, estou inclinado a crer que a esses elementos deve ser acrescido o amor para que se obtenha a excelência.
Não consigo visualizar um Jean Piaget, um Alan Baddeley, um Henri Wallon, um Lev Vygotsky, um Paulo Freire, ou qualquer desses grandes nomes, de idéias férteis e vasta produção, que não amassem profundamente aquilo que faziam e para quem faziam. Esse sentimento levou estas e outras pessoas ilustres a trabalhar incansavelmente, mesmo doentes ou em idades avançadas. E isso não se consegue funcionando apenas do "pescoço para cima". É preciso vibrar com todo o corpo a cada nova idéia, a cada hipótese confirmada, a cada pequeno avanço teórico, a cada contribuição ao conhecimento. Como os apaixonados, é preciso dar valor às pequenas coisas, para com elas, se construir grandes obras.
Acho que os vídeos que acompanham esse texto são uma pequena, porém significativa, demonstração do que pode esse sentimento. Neste mar de queixas, de descaso e de desrespeito que se tornou a nossa educação pública, podemos ver duas ilhas de envolvimento e competência transformando radicalmente a vida de estudantes que tinham encontro marcado com o fracasso em um futuro mais ou menos distante. Creio que são bons exmplos para fortalecer aquela nossa vontade de mudança, por vezes enfraquecida pelo pessimismo circundante.
Finalizo lembrando as palavras repetidas do Renato Russo: "Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria..."

domingo, 8 de maio de 2011

sábado, 7 de maio de 2011

Sobre zagueiros e atacantes...



           
            Sempre achei o futebol uma caixinha de metáforas. Expressões correntes no meio futebolístico podem ajudar a refletir sobre situações – às vezes difíceis – dos mais diversos contextos da nossa vida: “- treino é treino, jogo é jogo”; “- quem não faz, leva”; “- são 11 contra 11”; “cumprir tabela”...
             Creio que, a despeito de toda esquematização tática, que especializa a atuação dos atletas em funções muito específicas, podemos dividir os jogadores em dois grandes grupos: os defensores (ou zagueiros) e os atacantes. Está bem... Sei que têm os meio-campistas. Mas, se repararmos bem, uma parte deles dedica-se a defender, e outra, a “armar” as jogadas de ataque. Sendo assim, podemos ficar com essa divisão em dois grupos.
            Os zagueiros são, quase sempre, pouco habilidosos. Quem já jogou bola sabe que a tendência de toda criança é querer jogar o mais perto possível dá área adversária, para poder fazer muitos gols. Entretanto, permanecer atuando nessa faixa do campo vai depender da sua capacidade. Caso não se comprove, perdem-se posições em direção ao próprio gol, sendo que a pena máxima para quem não demonstra nenhuma intimidade com a bola nos pés, é jogar de goleiro!
            A falta de habilidade desses que jogam mais recuados, parece ser compensada com o excesso de vontade. Zagueiros costumam ser voluntariosos, gostam de demonstrar virilidade, uma força extra que os mirrados atacantes não teriam. Aliás, essa coisa de demonstrar virilidade, faz parte da composição do personagem e não pode ser vendida separadamente. Zagueiros devem ser grandes, fortes, mal-encarados e com apelidos no aumentativo.
            “Ossos do ofício”, diriam seus simpatizantes. Afinal de contas, a função desses abnegados é desarmar as jogadas, destruir aquilo que os abusados e habilidosos atacantes constroem com invejável talento. Às vezes, a coisa fica feia, e é preciso matar o lance, antes que nasça o gol adversário. Bem... Alguém tem que fazer o trabalho sujo! E nesse trabalho, devemos incluir outra tarefa bastante cara aos defensores: dar bronca no próprio time, toda vez que uma bola passa com perigo, perto da própria trave. Zagueiro que é zagueiro tem que fazer isso aos berros e com cara de muito zangado.
            Zagueiros se preocupam apenas com o "placar final". Querem vencer mesmo jogando mal. São adeptos do futebol de resultados. Por falar em resultados, dada a sua pouca destreza, zagueiros não costumam fazer gols. Quando o fazem, não costuma ser em jogadas de criatividade, senão nas chamadas “jogadas ensaiadas”, que, como o próprio termo sugere, são frutos do exercício e da repetição exaustiva.
             Uma coisa é certa: por motivos que julgo óbvios, zagueiros não gostam de atacantes! Todo drible, toda firula, toda jogada que faça o público vibrar pela sua plasticidade, é tomada como ofensa, como desrespeito, e terá as suas conseqüências. Se escapou agora, pode esperar que na próxima virá chumbo grosso. Zagueiros não costumam esquecer.
            Os atacantes, por sua vez, são sujeitos mais leves, em todos os sentidos (sei... esqueçamos momentaneamente algum fenômeno que fuja à regra...). Atacantes vivem sorrindo, têm visual mais fashion, apelidos no diminutivo, além de serem muito, muito criativos. Têm um vasto repertório e ainda gostam de inventar jogadas, pois querem melhorar sempre. Apreciam a estética do lance, tanto quanto o seu resultado prático, daí que são capazes até de aplaudir o adversário por algum lance genial. Por isso não lhes interessa apenas ganhar, querem realizar partidas memoráveis.
Como dispõem de autonomia e grande capacidade de adaptação, estão em toda parte do campo, conduzindo a bola ou fazendo-a rolar com maestria, de pé em pé, até o fundo das redes adversárias. Colocar o companheiro na cara do gol, para que este possa finalizar com tranqüilidade, tem o mesmo valor que marcar ele mesmo o gol.
            Atacantes são lembrados pelo que fazem (ou pelo "quase", como no vídeo do Pelé, postado abaixo). Zagueiros, pelo que desfazem...
            Talvez não seja exagero dizer que também temos dois grupos muito parecidos de professores: os professores zagueiros e os professores atacantes. Os professores zagueiros são sempre muito secos. Em hipótese alguma permitem gracinhas em sala. Para eles, o riso é sinal de pouca produtividade e de desrespeito. A alegria não faz parte do conteúdo, por isso, não a consideram importante.
Dada a pouca habilidade com a matéria, professores zagueiros não gostam de perguntas. Como são imprevisíveis, elas interferem no planejamento construído durante anos de exercício e repetição (o velho caderninho amarelado), o que levou à inflexibilidade que não comporta mínimas mudanças de script. Portanto, quando respondem, o fazem de maneira seca e precisa, desarmando qualquer intenção de tornar a indagar. Professores zagueiros matam a curiosidade na nascente. Tampouco admitem respostas errôneas, pois estas representam falta de atenção e de vontade, coisas que para eles são indispensáveis, pois são tudo que têm para oferecer aos seus alunos.
Professores zagueiros não se afastam da pequena área compreendida entre a sua carteira e a lousa. Também não gostam de alunos que desta zona se aproximam. Acreditam que a distância (física e psicológica) ajuda a manter o controle da situação e a ser duro quando for necessário (e quase sempre é...). Não raro, atuam como se fossem árbitros, penalizando duramente os que cometem erros e expulsando da sala aqueles considerados indisciplinados.
Professores atacantes são raros. Talvez por isso sempre nos lembramos dos poucos que tivemos. Caracterizam-se por um sólido conhecimento da sua disciplina e uma grande habilidade para ajudar os seus alunos a aprendê-la. Ao invés de falar o tempo todo, optam pelo diálogo, perguntando e respondendo, como se fizessem com que o conhecimento rolasse não de pé em pé, mas de cabeça em cabeça. São craques em transformar os erros dos alunos em questões para pensar, estimulando com isso a participação e melhorando a auto-confiança destes últimos.
Professores com estas características costumam ter um repertório amplo de estratégias de ensino e sabem o momento ideal para colocá-las em ação, adaptando-as às necessidades de seus alunos, e não o contrário. Se para os professores zagueiros os alunos se dividem em bons e maus, para os professores atacantes eles são únicos, cada um com suas potencialidades e limitações, e acreditam que a tarefa docente consiste em maximizar as primeiras e minimizar as últimas.
O objetivo dos professores atacantes não é somente a nota no boletim, como se fosse o resultado da partida registrado no placar. Eles sabem que o fim de toda educação é favorecer a autonomia das pessoas na sua vida cotidiana, e para isso, o que se aprende na escola deve servir de treino para o mundo fora dela. Por isso, estes professores trazem um pouco desse mundo para dentro da escola, aproveitando todas as chances de demonstrar a utilidade do conhecimento para as situações decisivas que seus alunos enfrentarão.


domingo, 24 de outubro de 2010

Inclusive, incluindo...





Não será difícil, após um brevíssimo sobrevoo histórico, chegar à conclusão de que a divisão social calcada na idéia de que existem pessoas que têm mais valor que outras, parece ser uma “inclinação”, ou forte tendência, do comportamento humano.Os nossos livros de história, da educação básica, nos lembram da cidade de Esparta, onde aqueles bebês nascidos com algum tipo de defeito físico eram sumariamente assassinados. A própria Grécia antiga, considerada por muitos o berço da cultura ocidental, bem como das idéias fundadoras da democracia, fazia uma distinção clara dos papéis de cidadãos homens, mulheres e escravos na dinâmica da participação política, reservando apenas aos primeiros, o direito de decidir os rumos da sociedade da época.

A escravidão, aliás, que nada mais é que suprimir, de indivíduos ou grupos sociais e/ou étnicos, direitos essenciais à dignidade humana, foi, ao longo de toda antiguidade e Idade Média, uma prática comum e aceita nos diversos sítios do nosso planeta. A despeito do pensamento generalizado de que esta é uma prática inaceitável nos dias de hoje, não podemos dizer que estamos totalmente livres dela. A estruturação de algumas sociedades pelos sistemas de estamento e castas, como por exemplo no feudalismo e na sociedade indiana, também reflete claramente esta idéia de que alguns indivíduos são nitidamente melhores do que outros, pelo simples fato de terem nascido em uma determinada família e sem que tivessem que fazer nenhum esforço para conseguir o status de privilegiado. A segregação de grupos étnicos, como negros, judeus, ciganos, etc. ainda é algo vivo na nossa memória histórica, e aqui e ali, representantes desses grupos ainda sofrem as consequências da sua ascendência, tendo muitas vezes que empreender grandes esforços para que direitos garantidos por lei, possam ser, por eles, desfrutados.

Para não deixar de lado a nossa própria filiação teórica e profissional, devemos lembrar que a Psicologia foi, em muitos momentos, uma ciência que colaborou com a manutenção das desigualdades sociais, tentando explicar “cientificamente” que era justo que pessoas com qualidades diferentes tivesses privilégios diferentes na sociedade. Desde Franz Joseph Gauss, no século XVIII, com a proposta de avaliar as características humanas por meio da Frenologia, passando por Sir Francis Galton, no século XIX, com a proposta do melhoramento da espécie por meio da Eugenia, até chegar aos testes de inteligência, instrumento que mais caracteriza a atuação do psicólogo, a Psicologia apresenta uma passado não muito louvável na defesa da igualdade de direito entre as pessoas. A discussão sobre a real utilidade dos testes de inteligência, desde sua primeira versão, proposta por Alfred Binet, no início do século passado, ainda tem muita força em algumas sociedades, principalmente nos EUA, onde a economia que mantém o sistema educacional depende fundamentalmente desses instrumentos de avaliação (supostamente) das capacidades humanas.

A universidade, instituição seletiva e elitista por natureza e tradição, tem obrigação de contribuir para mudar o curso dessa história. Ao empenho teórico de criticar idéias arcaicas e propor novas formas de pensar a relação entre os indivíduos e a diversidade que os rodeiam, deve-se agregar os exemplos práticos, mostrando à sociedade uma postura coerente, que deve ser seguida se pensamos em um mundo mais inclusivo e acolhedor. Espero que os vídeos dessa postagem possam contribuir para que reflitamos sobre a inclusão em um setor tão representativo para a chamada "opinião pública".



segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Emergência!!!



Uma das postagens deste blog que mais gerou discussão foi a que tratava da lousa digital. A utilização de tecnologia em sala de aula, ainda é um tema controverso, e, pelo que pude perceber, alvo da resistência de muitas pessoas ligadas à educação. Em função disso, resolvi abordar o tema apartir de uma outra perspectiva. Uma perspectiva contrária á morosidade das mudanças no âmbito da educação. 
É certo que não considero que toda mudança seja, em si, positiva. Mudar por mudar, mudar para parecer moderno, jovem, atual ou avançado, sendo esta mudança superficial, obviamente, não deve ser a meta de nenhum sistema educacional que objetive a qualidade das suas ações.  As transformações deste sistema devem atender exclusivamente às melhorias nas possibilidades de desenvolvimento dos potenciais humanos. Mormente, aqueles que levarão os indivíduos a estabelecerem uma relação mais profícua e harmoniosa consigo mesmo, com os outros e com a natureza.
Por outro lado, devemos mesmo reconhecer que não é fácil mudar. A mudança gera desconforto, insegurança, medo. O novo, por vezes, assusta. Não nos acostumamos (boa parte de nós) a lidar com as incertezas, as imprevisibilidades, com o acaso como principal parceiro do nosso destino. Preferimos, muitas vezes, lidar com a monotonia da rotina, com a certeza de já ter visto esse filme e nunca ficarmos chatedos se alguém nos conta o final, pois também já sabíamos.
Ter coragem para mudar, entretanto, é tão necessário quanto urgente, quando constatamos que o preço da manutenção de comportamentos atávicos é o fracasso na vida de centenas de milhares de crianças e jovens que não conseguem aprender nesta escola que aí está.  Quantas vezes teremos que repetir aos saudosistas de plantão, que o mundo mudou, o mundo mudou, o mundo mudou, o mundo mudou, o mundo mudou!!! Acho que nem eles gostam dessa repetição...