domingo, 8 de maio de 2011

sábado, 7 de maio de 2011

Sobre zagueiros e atacantes...



           
            Sempre achei o futebol uma caixinha de metáforas. Expressões correntes no meio futebolístico podem ajudar a refletir sobre situações – às vezes difíceis – dos mais diversos contextos da nossa vida: “- treino é treino, jogo é jogo”; “- quem não faz, leva”; “- são 11 contra 11”; “cumprir tabela”...
             Creio que, a despeito de toda esquematização tática, que especializa a atuação dos atletas em funções muito específicas, podemos dividir os jogadores em dois grandes grupos: os defensores (ou zagueiros) e os atacantes. Está bem... Sei que têm os meio-campistas. Mas, se repararmos bem, uma parte deles dedica-se a defender, e outra, a “armar” as jogadas de ataque. Sendo assim, podemos ficar com essa divisão em dois grupos.
            Os zagueiros são, quase sempre, pouco habilidosos. Quem já jogou bola sabe que a tendência de toda criança é querer jogar o mais perto possível dá área adversária, para poder fazer muitos gols. Entretanto, permanecer atuando nessa faixa do campo vai depender da sua capacidade. Caso não se comprove, perdem-se posições em direção ao próprio gol, sendo que a pena máxima para quem não demonstra nenhuma intimidade com a bola nos pés, é jogar de goleiro!
            A falta de habilidade desses que jogam mais recuados, parece ser compensada com o excesso de vontade. Zagueiros costumam ser voluntariosos, gostam de demonstrar virilidade, uma força extra que os mirrados atacantes não teriam. Aliás, essa coisa de demonstrar virilidade, faz parte da composição do personagem e não pode ser vendida separadamente. Zagueiros devem ser grandes, fortes, mal-encarados e com apelidos no aumentativo.
            “Ossos do ofício”, diriam seus simpatizantes. Afinal de contas, a função desses abnegados é desarmar as jogadas, destruir aquilo que os abusados e habilidosos atacantes constroem com invejável talento. Às vezes, a coisa fica feia, e é preciso matar o lance, antes que nasça o gol adversário. Bem... Alguém tem que fazer o trabalho sujo! E nesse trabalho, devemos incluir outra tarefa bastante cara aos defensores: dar bronca no próprio time, toda vez que uma bola passa com perigo, perto da própria trave. Zagueiro que é zagueiro tem que fazer isso aos berros e com cara de muito zangado.
            Zagueiros se preocupam apenas com o "placar final". Querem vencer mesmo jogando mal. São adeptos do futebol de resultados. Por falar em resultados, dada a sua pouca destreza, zagueiros não costumam fazer gols. Quando o fazem, não costuma ser em jogadas de criatividade, senão nas chamadas “jogadas ensaiadas”, que, como o próprio termo sugere, são frutos do exercício e da repetição exaustiva.
             Uma coisa é certa: por motivos que julgo óbvios, zagueiros não gostam de atacantes! Todo drible, toda firula, toda jogada que faça o público vibrar pela sua plasticidade, é tomada como ofensa, como desrespeito, e terá as suas conseqüências. Se escapou agora, pode esperar que na próxima virá chumbo grosso. Zagueiros não costumam esquecer.
            Os atacantes, por sua vez, são sujeitos mais leves, em todos os sentidos (sei... esqueçamos momentaneamente algum fenômeno que fuja à regra...). Atacantes vivem sorrindo, têm visual mais fashion, apelidos no diminutivo, além de serem muito, muito criativos. Têm um vasto repertório e ainda gostam de inventar jogadas, pois querem melhorar sempre. Apreciam a estética do lance, tanto quanto o seu resultado prático, daí que são capazes até de aplaudir o adversário por algum lance genial. Por isso não lhes interessa apenas ganhar, querem realizar partidas memoráveis.
Como dispõem de autonomia e grande capacidade de adaptação, estão em toda parte do campo, conduzindo a bola ou fazendo-a rolar com maestria, de pé em pé, até o fundo das redes adversárias. Colocar o companheiro na cara do gol, para que este possa finalizar com tranqüilidade, tem o mesmo valor que marcar ele mesmo o gol.
            Atacantes são lembrados pelo que fazem (ou pelo "quase", como no vídeo do Pelé, postado abaixo). Zagueiros, pelo que desfazem...
            Talvez não seja exagero dizer que também temos dois grupos muito parecidos de professores: os professores zagueiros e os professores atacantes. Os professores zagueiros são sempre muito secos. Em hipótese alguma permitem gracinhas em sala. Para eles, o riso é sinal de pouca produtividade e de desrespeito. A alegria não faz parte do conteúdo, por isso, não a consideram importante.
Dada a pouca habilidade com a matéria, professores zagueiros não gostam de perguntas. Como são imprevisíveis, elas interferem no planejamento construído durante anos de exercício e repetição (o velho caderninho amarelado), o que levou à inflexibilidade que não comporta mínimas mudanças de script. Portanto, quando respondem, o fazem de maneira seca e precisa, desarmando qualquer intenção de tornar a indagar. Professores zagueiros matam a curiosidade na nascente. Tampouco admitem respostas errôneas, pois estas representam falta de atenção e de vontade, coisas que para eles são indispensáveis, pois são tudo que têm para oferecer aos seus alunos.
Professores zagueiros não se afastam da pequena área compreendida entre a sua carteira e a lousa. Também não gostam de alunos que desta zona se aproximam. Acreditam que a distância (física e psicológica) ajuda a manter o controle da situação e a ser duro quando for necessário (e quase sempre é...). Não raro, atuam como se fossem árbitros, penalizando duramente os que cometem erros e expulsando da sala aqueles considerados indisciplinados.
Professores atacantes são raros. Talvez por isso sempre nos lembramos dos poucos que tivemos. Caracterizam-se por um sólido conhecimento da sua disciplina e uma grande habilidade para ajudar os seus alunos a aprendê-la. Ao invés de falar o tempo todo, optam pelo diálogo, perguntando e respondendo, como se fizessem com que o conhecimento rolasse não de pé em pé, mas de cabeça em cabeça. São craques em transformar os erros dos alunos em questões para pensar, estimulando com isso a participação e melhorando a auto-confiança destes últimos.
Professores com estas características costumam ter um repertório amplo de estratégias de ensino e sabem o momento ideal para colocá-las em ação, adaptando-as às necessidades de seus alunos, e não o contrário. Se para os professores zagueiros os alunos se dividem em bons e maus, para os professores atacantes eles são únicos, cada um com suas potencialidades e limitações, e acreditam que a tarefa docente consiste em maximizar as primeiras e minimizar as últimas.
O objetivo dos professores atacantes não é somente a nota no boletim, como se fosse o resultado da partida registrado no placar. Eles sabem que o fim de toda educação é favorecer a autonomia das pessoas na sua vida cotidiana, e para isso, o que se aprende na escola deve servir de treino para o mundo fora dela. Por isso, estes professores trazem um pouco desse mundo para dentro da escola, aproveitando todas as chances de demonstrar a utilidade do conhecimento para as situações decisivas que seus alunos enfrentarão.